terça-feira, 10 de julho de 2007

Da honra e da vergonha perdidas

Artigo de Ubiratan Jorge Iorio de Souza, em 09/07/2007. Há uma forte e preocupante sensação de que muitas pessoas, "neste país" governado pelo "maior presidente de todos os tempos", perderam definitivamente a honra e a vergonha.Conforme noticiou fartamente a mídia que o ministro da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão (lá, eles têm o bom costume de economizar ministérios), por ter seu nome envolvido em uma acusação de corrupção que assoma a R$446,7 milhões, suicidou-se, para não ter que se submeter à execração pública. Na cultura nipônica, a perda da honra perante a sociedade costuma motivar inúmeros casos de auto-imolação: apenas no ano de 2004, foram registrados 32 mil casos.A raiz dos sentimentos de honra e vergonha - intrínsecos e inerentes a homens e mulheres não corrompidos -, bem como o elevado valor atribuído ao primeiro, está no fato de que não nascemos para sermos solitários, mas para sermos solidários: um Robinson Crusoé em uma ilha deserta não tem porque prezar sua honra e nem sentir vergonha. É natural, portanto, que o homem aspire a ser considerado um membro útil na sociedade, capaz de cooperar com os demais e, portanto, a ter o direito de participar das vantagens que a vida em comunidade oferece. Para tal, precisa fazer o que se lhe exige e o que dele se espera, seja como indivíduo, seja na posição social que eventualmente ocupa, o que o leva a sentir que o importante não é o que representa na sua própria opinião, mas na dos outros, que emerge como um forte valor. Essas exigências explicam a espontaneidade do atributo chamado de honra ou - de acordo com as circunstâncias -, de pudor, que o deixa ruborizado de vergonha quando acredita ter subitamente decaído na opinião dos outros, mesmo quando sabe ser inocente: é o chamado dano moral.Ainda no século XVIII, Matias Aires já ensinava que "não há maior injúria que o desprezo, porque o desprezo ofende a vaidade; por isso a perda da honra aflige mais que a da fortuna, não porque esta deixe de ter um objeto mais certo e mais visível, mas porque aquela toda se compõe de vaidade, que é em nós a parte mais sensível". De fato, é mais difícil para o homem digno expor a sua honra por amor à vida do que sacrificar a própria vida por amor à honra.Como compreender, então, que muitas importantes figuras públicas brasileiras também acusadas de corrupção ajam com freqüência como se fossem verdadeiros heróis nacionais? Não chego ao extremo de pleitear que se transformassem em japoneses e se suicidassem, porque só a Deus cabe dar e tirar a vida de seres humanos, mas não posso deixar de observar o triste Brasil de hoje, em que atributos como honra e vergonha, para muitos homens públicos, não passam de palavras, apenas palavras, nada mais do que inúteis e vãs palavras. Vampiros e mensaleiros; sanguessugas e navalheiros; lobistas e empreiteiros; irmãos, cunhados, secretárias, esposas, namoradas e amantes; citados por formação de quadrilha e assemelhados... O que leva tantas pessoas importantes não apenas a desprezarem a própria honra e a perderem completamente a vergonha, mas a mentirem flagrantemente, encenando espetáculos bufos repletos de subterfúgios e de encenações, para enganar a opinião pública? E - pior - porque a grande maioria desses inimigos da pátria recusa-se a abandonar a vida pública? Ou - o que ainda é mais preocupante - por que têm o desplante de pleitear anistias (e, muitas vezes, até conseguem ser reeleitos), no caso de parlamentares, ou de permanecerem em seus cargos, no caso de magistrados, funcionários públicos, executivos e, novamente, de parlamentares? O ar está tão podre "neste país" que honra parece ser apanágio de otários; vergonha, de bobocas; pudor, de freiras enclausuradas e dignidade, de idiotas! O importante não é servir, mas servir-se; não é prover, mas locupletar-se e não é trabalhar, mas enriquecer a qualquer custo!Corruptos, desonrados, sem vergonhas e indignos há em todos os jardins do mundo, mas na maioria deles não grassa o capim bravo da impunidade e a tiririca das punições brandas; corporativismo e patrimonialismo espraiam-se também por outras culturas, mas nem de longe vicejam como cá. E chefes de executivos débeis e despreparados também pousam em arbustos de outras paragens, mas, lá, não gorjeiam como cá! Porque, lá, existe Lei e porque a Lei que lá existe é igual para todos.

Sobre o autor:Doutor em Economia (EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).

Nenhum comentário: